Puma GTE (1969): o esportivo que um fazendeiro de Matão desenhou e o país inteiro chamou de Porsche

Nascido numa fazenda do interior paulista, o Puma virou o esportivo possível de um país de mercado fechado. Foram 8.705 unidades do GTE e 21.735 Pumas no Brasil — e hoje um exemplar é anunciado nos EUA por US$ 27 mil.

Puma GTE (1969): o esportivo que um fazendeiro de Matão desenhou e o país inteiro chamou de Porsche

Matão, interior de São Paulo, meados dos anos 1960. Numa oficina montada dentro de uma fazenda, um agricultor de origem italiana chamado Rino Malzoni passava os dias moldando a mão, em compensado e fibra de vidro, a carroceria de um cupê de corrida. Não havia departamento de estilo, túnel de vento nem orçamento de desenvolvimento. Havia um homem com gosto por carro, uma equipe de competição amiga e a certeza de que o Brasil não ia importar esportivo tão cedo. Daquele galpão saiu a linhagem que o país passaria vinte anos chamando de "o Porsche brasileiro".

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O Puma importa por um motivo que vai além do desenho bonito: ele é a prova de que, num mercado fechado à importação, a vontade de ter um esportivo não desaparece — ela se reorganiza. Sem acesso a Porsche, Alfa Romeo ou Lotus, o comprador brasileiro de classe média alta dos anos 1970 encontrou no Puma um carro de dois lugares, leve, barato de manter e mecanicamente idêntico ao Fusca da esquina.

E porque ele foi longe. Não ficou no protótipo de salão: virou empresa, linha de montagem, rede de concessionárias e produto de exportação. Pelos números reunidos pelo acervo Carro Antigo, foram 8.705 unidades só do GTE e 21.735 Pumas fabricados no Brasil — mais 383 montados na África do Sul. Para um fabricante independente num país sem tradição de esportivo, é um volume que praticamente nenhum concorrente nacional alcançou.

De onde ele veio

A história começa em 1964, quando quatro entusiastas ligados ao time de competição da DKW-Vemag formaram a Lumimari — nome feito das iniciais de Luiz Roberto Alves da Costa, Milton Masteguin, Mário César de Camargo Filho e Rino Malzoni. A ideia era direta: um cupê de dois lugares com carroceria de fibra de vidro e toda a mecânica da Vemag por baixo. O carro ficou conhecido como GT Malzoni e rodou em quantidade mínima entre 1965 e 1966.

Em julho de 1966 a sociedade se reorganizou. Jorge Lettry, gerente de competições da Vemag, convenceu os sócios a rebatizar a empresa como Puma Veículos e Motores S.A., e o desenhista Anísio Campos refez as linhas do GT Malzoni. Nasceu o Puma GT com o motor DKW de 981 cm³, três cilindros e dois tempos — um motor que queima óleo misturado à gasolina, leve e barulhento, herança da engenharia alemã do pós-guerra. Apresentado no Salão de 1966, o carro fez sucesso imediato.

E quase morreu junto. Em 1967 a Volkswagen comprou a Vemag e encerrou a linha DKW no Brasil. De uma hora para outra, a Puma ficou sem o motor do seu único produto — foram só cerca de 130 unidades do Puma-DKW. A saída foi óbvia e genial ao mesmo tempo: adotar a mecânica mais abundante do país.

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O que ele tinha de diferente

Em abril de 1968 saiu o Puma GT 1500, montado sobre uma plataforma de Karmann-Ghia encurtada em 250 mm — o entre-eixos caiu de 2.400 para 2.150 mm. Por baixo, o motor boxer refrigerado a ar da Volkswagen (quatro cilindros deitados, dois de cada lado, socando um contra o outro), montado atrás do eixo traseiro. Eram 1.493 cm³ e 44 cv de origem, que passavam a cerca de 50 cv com dois carburadores Brosol de 32 mm, segundo o Autoentusiastas.

No segundo semestre de 1969 veio o GTE, com motor de 1.585 cm³ e cabeçote de duplo duto de admissão — mais eficiente para encher os cilindros em giro alto. Em 1971 chegou o GTS, a versão conversível. E aqui está o truque que explica o carro: o Puma nunca teve muita potência. O que ele tinha era pouco peso. A carroceria de fibra de vidro pesa uma fração do equivalente em aço, e o chassi encurtado tirou mais quilos. O resultado é um carro que anda bem com motor modesto — tanto que, quando a Volkswagen lançou o SP2 em 1972 com 1.679 cm³, o esportivo da montadora ainda ficava atrás do Puma de 1.600 em desempenho.

A produção cresceu rápido: 151 carros em 1968, 272 em 1969 e algo perto de 3.500 por ano no fim da década de 1970, conforme o levantamento do FlatOut. Em 1977 veio a mudança mais visível — a plataforma passou a ser a da Brasília, mais larga, e a traseira foi redesenhada mais alta, recebendo lanternas de Kombi.

O que o Puma significou aqui

É impossível entender o Puma sem entender a porta fechada. Entre o fim dos anos 1960 e o fim dos 1980, o Brasil praticamente não importava automóvel. Quem queria um carro de dois lugares, baixo, com cara de esportivo europeu, tinha duas opções: o SP2 da Volkswagen ou o Puma. E o Puma tinha uma vantagem decisiva — era mecanicamente um Fusca. Qualquer mecânico de bairro sabia mexer, qualquer loja de peças tinha o que ele precisava, e o consumo era de carro popular. Esportivo com conta de Fusca: essa foi a fórmula.

Daí o apelido que grudou e que o próprio dono às vezes detestava — "Porsche dos pobres". Era injusto e exato ao mesmo tempo. Injusto porque o Puma não copiava Porsche: tinha desenho próprio, assinado por Anísio Campos. Exato porque a arquitetura era parente — motor boxer refrigerado a ar, traseiro, carroceria leve — e porque o carro entregava, por uma fração do preço, a sensação que o alemão vendia caro.

O Puma também saiu daqui. Entre 1969 e 1980 foram 1.035 carros montados exportados, e a fábrica chegou a despachar kits desmontados para montagem fora do país — o que explica os 383 Pumas sul-africanos. Houve um episódio simbólico do tamanho da ambição e do tamanho do obstáculo: um lote de 150 unidades enviado aos Estados Unidos acabou devolvido ao Brasil depois que a legislação americana mudou e o carro deixou de ser homologável.

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O que sobrou disso

O fim veio pelo mesmo lugar por onde tinha vindo a oportunidade: a porta. Quando as importações começaram a destravar e os japoneses chegaram, o argumento do Puma evaporou — ninguém mais precisava de um substituto improvisado para o esportivo estrangeiro. Somada à crise econômica dos anos 1980, a conta não fechou. A empresa entrou em concordata em 1986 e vendeu marca e ferramental para a Araucária, do Paraná, que depois repassou para a Alfa Metais. A produção continuou por um tempo, sem o brilho de antes, e acabou.

O que ficou é mais do que nostalgia. O Puma provou que dava para fazer carroceria de compósito em escala no Brasil, formou uma geração de projetistas e deixou uma comunidade de donos que mantém os carros rodando até hoje — e é por causa dela que peça de Puma ainda se acha.

E o mercado notou. Um GTE 1975 que saiu do Brasil foi anunciado nos Estados Unidos por US$ 27 mil, valor que, como observou a reportagem da AUTOO, compra um Ford Mustang GT 2010 por lá. O argumento de venda não é mais o preço baixo: é a história. Um esportivo desenhado numa fazenda de Matão, feito de fibra de vidro, com motor de Fusca, numa época em que o país dizia que não dava para fazer. Deu.

Fonte: Autoentusiastas, FlatOut, Motor Show, Carro Antigo, AUTOO.

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